O que são as tonalidades
No artigo anterior vimos a armadura de clave. A partir dela, temos as tonalidades das músicas, conforme as regras que definem sua identificação. Partindo de Dó Maior, onde não há acidentes fixos na partitura, podemos ir até 7 bemóis ou 7 sustenidos.
Em nosso caso, estudamos apenas tonalidades maiores, porque nossos hinos são todos assim, mas no total existem 24 tonalidades, incluindo as tonalidades menores. Para compreender a importância da escolha da tonalidade na música, precisamos compreender outro ponto importante: O nascimento da música.
Como a música surgiu
A música surgiu no mundo há milhares de anos. No Egito Antigo e na Mesopotâmia, a música ganhou caráter religioso e estruturado, utilizando harpas, liras, flautas e instrumentos de percussão.
Na China e na Índia, desenvolveu-se a espiritualidade sonora, com a escala pentatônica e os tradicionais ragas.
O fato é que a música surgiu para cultos espirituais e não por acaso; a música já existia antes de a criação do mundo e Deus nos agraciou com esse conhecimento.
Na idade média surgiram as notações musicais. Nessa época é que tínhamos as figuras musicais grave, longa e máxima (veja o artigo figuras musicais para conhecer os símbolos de tempo e pausa). Nessa época a música não tinha fórmula de compasso. Os músicos usavam sinais de mensuração:
| Sinal de Mensuração | Nome do Sistema | Divisão (Tempus / Prolatio) | Equivalente Moderno Aproximado |
|---|---|---|---|
| ◯ (Círculo completo) | Tempus perfectum, prolatio minor | Breve dividida em 3; Semibreve em 2. | Compasso 3/4 ou 3/2 |
| ⊙ (Círculo com ponto) | Tempus perfectum, prolatio maior | Breve dividida em 3; Semibreve em 3. | Compasso 9/8 ou 9/4 |
| C (Semicírculo) | Tempus imperfectum, prolatio minor | Breve dividida em 2; Semibreve em 2. | Compasso 2/4 ou 4/4 |
| 𝄴 (Semicírculo com ponto) | Tempus imperfectum, prolatio maior | Breve dividida em 2; Semibreve em 3. | Compasso 6/8 ou 6/4 |
O "C" que usamos para representar compasso quartenário é na verdade um semicírculo, como podemos notar na tabela. E para compasso 2/2, usamos hoje um símbolo de centavo. Hoje também damos valores proprocionais à figura musical, como 1 para semibreve e 4 para seminima. Mas na idade média isso não seria possível, pois a figura inicial não era a semibreve.
A medição era feita como na imagem a seguir.

Ainda sobre as medições e a música mundana
A Transição: Como o ritmo deixou de ser puramente religioso
Até o século XIII, a Igreja Católica detinha o monopólio da escrita musical. A música servia estritamente para a liturgia, o que justificava a imposição espiritual da "perfeição ternária". No entanto, a transição para a música secular (profana) e a liberdade rítmica aconteceu por meio de três fatores principais:
- O Movimento da *Ars Nova* (Século XIV): Tratados musicais de teóricos como ****Philippe de Vitry***** e ****Jehan des Murs***** defenderam formalmente que a divisão binária (por 2) tinha o mesmo valor estético e técnico que a ternária. Foi uma "revolução intelectual" que "equiparou" o "humano" ao "divino" na estrutura musical. Bastante aspas por aqui, já que sabemos que a música mundana é de natureza profana.
- A Ascensão da Música Profana: Compositores como ****Guillaume de Machaut***** começaram a aplicar a complexidade da notação mensural em canções de amor, baladas e crônicas cotidianas (ballades, rondeaux e virelais*). Longe da fiscalização da Igreja, os ritmos tornaram-se livres para simular a fala, a dança e os batimentos cardíacos.
- O "Complexo" do Século XIV (*Ars Subtilior*): No final da Idade Média, a liberdade rítmica tornou-se tão extrema que os compositores criavam misturas de compassos altamente complexas (chamadas hoje de polirritmia), onde uma voz cantava em ritmo binário enquanto outra, simultaneamente, cantava em ritmo ternário. As partituras eram tão artísticas que algumas eram desenhadas em formatos geométricos, como corações ou harpas.
Essa quebra de paradigma pavimentou o caminho para a Renascença, transformando a música de uma ferramenta de oração matemática em uma forma de expressão artística humana. - Assim, a música mundana é profana, para a carne e "o que agrada a carne, não agrada a Deus".
No Renascimento, a música ganhou aspectos identificáveis classificativos. Beethoven foi o precursor dessa classificação que posteriormente passou por redefinição, mas a assinatura musical de Beethoven já houvera se tornado padrão, usado até os dias de hoje.
As 24 tonalidades e seus significados
A tabela abaixo sintetiza principalmente as descrições históricas de Christian Friedrich Daniel Schubart, com algumas associações tradicionais posteriores (inclusive a mudança da significância de Mi bemol Maior).
| Tonalidade | Caráter ou ideia associada |
|---|---|
| Dó maior | Pureza, inocência, simplicidade, começo |
| Dó menor | Amor sofrido, tragédia, luta interior |
| Ré♭ maior | Mistério, sentimentos incomuns, ambiguidade |
| Dó♯ menor | Arrependimento, oração, tristeza íntima |
| Ré maior | Triunfo, vitória, glória, celebração |
| Ré menor | Melancolia, tristeza, introspecção |
| Mi♭ maior | Heroísmo, nobreza, majestade, devoção |
| Mi♭ menor | Desespero, angústia profunda, escuridão |
| Mi maior | Alegria intensa, entusiasmo, exaltação |
| Mi menor | Saudade, amor inocente, esperança |
| Fá maior | Paz, estabilidade, serenidade, natureza |
| Fá menor | Luto, sofrimento, profunda tristeza |
| Fá♯ maior | Superação, libertação, vitória após dificuldades |
| Fá♯ menor | Ressentimento, inquietação, descontentamento |
| Sol maior | Natureza, amizade, gratidão, alegria tranquila |
| Sol menor | Inquietação, frustração, indignação |
| Lá♭ maior | Morte, eternidade, julgamento, solenidade |
| Sol♯ menor | Lamentação, sofrimento, luta difícil |
| Lá maior | Esperança, confiança, juventude, amor |
| Lá menor | Ternura, delicadeza, piedade |
| Si♭ maior | Amor alegre, esperança, consciência tranquila |
| Si♭ menor | Solidão, amargura, descontentamento |
| Si maior | Paixões violentas, ciúme, raiva, desespero |
| Si menor | Paciência, resignação, aceitação do destino |
Assim, olhamos para uma música e sabemos que sentimento devemos exprimir: Mi bemol Maior, associado a nobreza; a grandeza; ao herói. Fá maior, associado à estabilidade, tranquilidade e a hinos de louvores.
Nesse artigo da abc.net.au (em inglês) estão descritos com mais detalhes os caráteres musicais. Mas traduzo a parte de maior relevância:
Dó maior (C Major)
Completamente pura. Seu caráter é marcado pela inocência, simplicidade, ingenuidade e espontaneidade da linguagem infantil.
Dó menor (C Minor)
Declaração de amor e, ao mesmo tempo, lamento por um amor infeliz. Todo o sofrimento, o anseio, a saudade e os suspiros de uma alma enferma de amor encontram expressão nesta tonalidade.
Ré bemol maior (D♭ Major)
Uma tonalidade de caráter insinuante, que oscila entre a tristeza e o arrebatamento. Não consegue rir, mas pode sorrir; não consegue soltar um grito de dor, mas pode expressar o sofrimento por meio de uma expressão contraída de choro. Por isso, somente sentimentos e personagens incomuns encontram expressão adequada nesta tonalidade.
Dó sustenido menor (C♯ Minor)
Lamento de arrependimento, conversa íntima com Deus, amigo e amparo da vida. Os suspiros provocados por amizades e amores frustrados encontram-se no domínio desta tonalidade.
Ré maior (D Major)
A tonalidade do triunfo, dos aleluias, dos gritos de guerra e da alegria da vitória. Por isso, sinfonias de caráter festivo, marchas, canções comemorativas e coros de júbilo celestial são frequentemente associados a esta tonalidade.
Ré menor (D Minor)
Feminilidade melancólica, abatimento e sentimentos sombrios. Uma tonalidade na qual predominam a introspecção, a tristeza e os humores melancólicos.
Mi bemol maior (E♭ Major)
A tonalidade do amor, da devoção e da conversa íntima com Deus.
Ré sustenido menor (D♯ Minor)
Expressa a angústia da alma em seu sofrimento mais profundo, o desespero persistente, a depressão mais sombria e os estados mais obscuros do espírito. Todo medo e toda hesitação de um coração aterrorizado parecem respirar nesta tonalidade. Se os fantasmas pudessem falar, sua linguagem se aproximaria de Ré sustenido menor.
Mi maior (E Major)
Gritos intensos de alegria, prazer jubiloso e uma felicidade que ainda não alcançou sua plenitude caracterizam Mi maior.
Mi menor (E Minor)
Declaração de amor ingênua, feminina e inocente; lamento sem revolta; suspiros acompanhados de poucas lágrimas. Esta tonalidade expressa a esperança de que o sofrimento esteja prestes a se transformar na felicidade pura de Dó maior.
Fá maior (F Major)
Afabilidade e serenidade. Uma tonalidade associada à gentileza, à tranquilidade e à disposição harmoniosa do espírito.
Fá menor (F Minor)
Profunda tristeza, lamento fúnebre, gemidos de sofrimento e desejo de encontrar descanso na sepultura.
Fá sustenido maior (F♯ Major)
Triunfo sobre as dificuldades e suspiro de alívio após a superação dos obstáculos. Em todos os seus usos, esta tonalidade carrega o eco de uma alma que lutou intensamente e finalmente conquistou a vitória.
Fá sustenido menor (F♯ Minor)
Uma tonalidade sombria, que se agarra à paixão como um cão que morde uma vestimenta. O ressentimento e o descontentamento constituem sua linguagem.
Sol maior (G Major)
Tudo o que é campestre, idílico e lírico; toda paixão serena e satisfeita; toda gratidão sincera pela verdadeira amizade e pelo amor fiel. Em resumo, todos os sentimentos suaves e pacíficos do coração encontram expressão adequada nesta tonalidade.
Sol menor (G Minor)
Descontentamento, inquietação e preocupação diante de planos fracassados; ranger de dentes provocado pelo mau humor. Em resumo, ressentimento e aversão.
Lá bemol maior (A♭ Major)
A tonalidade da sepultura. A morte, o túmulo, a decomposição, o julgamento e a eternidade pertencem ao seu universo expressivo.
Lá bemol menor (A♭ Minor)
Uma tonalidade de caráter queixoso, como um coração comprimido até a asfixia. Lamentos dolorosos e lutas difíceis marcam sua expressão. Em resumo, sua cor emocional representa tudo aquilo que enfrenta grandes dificuldades e sofrimento.
Lá maior (A Major)
Esta tonalidade reúne declarações de amor inocente, satisfação com a própria condição, esperança de reencontrar a pessoa amada após uma separação, alegria juvenil e confiança em Deus.
Lá menor (A Minor)
Feminilidade piedosa e ternura de caráter. Uma tonalidade associada à delicadeza, à devoção e à sensibilidade.
Si bemol maior (B♭ Major)
Amor alegre, consciência tranquila e esperança de um mundo melhor.
Si bemol menor (B♭ Minor)
Uma personalidade singular, frequentemente envolta nas vestes da noite. Possui um caráter um tanto sombrio e raramente apresenta uma expressão agradável. Zomba de Deus e do mundo, descontente consigo mesma e com tudo ao seu redor. Nesta tonalidade, ouve-se até mesmo a preparação para o suicídio.
Si maior (B Major)
Uma tonalidade de cores intensas, que anuncia paixões violentas e utiliza os contrastes mais marcantes. A ira, a raiva, o ciúme, a fúria, o desespero e todos os tormentos do coração encontram-se em seu domínio.
Si menor (B Minor)
Esta é, por assim dizer, a tonalidade da paciência, da espera serena pelo próprio destino e da submissão à vontade divina.
Será isso mesmo?
Será isso mesmo? Vamos conferir com nosso hinário - onde temos algumas músicas de autoria própria, outras de compositores antigos.
415 - Na cruz morreu o Cordeiro
Dó Maior. O que diz a tabela acima? - Inocência.
402 -Ó irmãos a Deus devemos...
Fá Maior - Gentileza, harmonia de espírito etc.
395 - "Eis-me aqui", dirá o Criador
Mi bemol Maior. A tonalidade do amor, da devoção e da conversa íntima com Deus.
Mas quando a música tem uma tonalidade e deve expressar outra coisa? - É o caso do hino "260 - Sou servo inútil, ó Deus piedoso". É conversa íntima, devoção, mas representa humildade, pelo reconhecimento da insignificância humana perante o altíssimo Deus Criador. Então o hino acrescenta ao lado do BPM: "Com humildade".
367 - Ao que vive para sempre...
Ré Maior. A tonalidade do triunfo, dos aleluias, dos gritos de guerra e da alegria da vitória. Por isso, sinfonias de caráter festivo, marchas, canções comemorativas e coros de júbilo celestial são frequentemente associados a esta tonalidade.
E pra decorar isso tudo?
Não precisamos decorar nada. Com o passar do tempo vamos percebendo a repetição de algumas tonalidades e basta compreendermos a expressão dela. Os hinos se caracterizam em torno de sua tonalidade e quando algum precisa de uma expressão específica, estará escrito ao lado do BPM.
A base é sempre o hinário em Dó (instrumento sem transposição), porque os demais hinários consideram o transporte e isso muda a tonalidade, apesar de ao tocar, soar na frequência das notas escritas para instrumentos em Dó.
